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sábado, 17 de outubro de 2009

A Bênção de Deus





Quando Palmas iniciava seu processo urbano e atraía seus primeiros moradores, Porto Nacional há muito já estava fincada no meio do cerrado norte-goiano como uma cidade tradicional, às margens do rio tocantins, conhecida com a mais histórica e como berço da cultura deste sertão outrora muito distante da capital de Goiás. E foi justamente de Porto que vieram alguns dos primeiros funcionários públicos e habitantes para esta planície onde edificaram a capital do Estado do Tocantins.

Porto Nacional cedeu parte de sua população e também foi favorecida pela proximidade com o centro das decisões políticas do Estado havendo, portanto, um equlíbrio entre as perdas e ganhos advindos com o surgimento da cidade administrativa.

Entre as tantas famílias que migraram nessa direção estava a do irmão Leonardo, um crente Batista natural da bahia que vendeu o que tinha para investir neste novo horizonte que ele viu se abrir não só para aqueles oriundos da região, mas para todos os brasileiros que tivessem coragem da arriscar-se a uma nova vida.

Quando chegou com a esposa, os dois filhos e a filha ele logo comprou uma casinha simples naquela quadra que hoje é uma das regiões mais nobres da cidade, a Arne 14, e com o que sobrou saiu à procura de uma nova ocupação já que com sua mudança havia vendido a oficina de bicicleta que era o que lhe dava o sustento.

Sem saber por onde começar ele foi até a rodoviária que ficava na Arso 41 e logo que lá encostou avistou uma lanchonete bem rústica à venda que não tinha mais do que duas ou três sacolas de laranjas dependuradas em sua dependência. Ao procurar saber o valor, o proprietário pediu dois mil e quinhentos reais por aquele vão de tábua que fazia parte da estrutura precária da rodoviária e que era desprovido de móveis e qualquer tipo de saneamento básico. Depois de fazer um levantamento no seu capital, irmão Leonardo viu que podia dispor apenas de dois mil contando com as duas bicicletas que seus filhos usavam para ir a escola. E a proposta foi bem recebida e aceita pelo vendedor que de imediato lhe entregou a posse daquela sala vazia.

Para dar início à labuta ele comprou um fogão, arranjou uma geladeira emprestada com um irmão do grupo de gideões e a estufa foi doada por um irmão de sangue. A partir daí toda manhã ele ia ao açougue comprar meio quilo de carne moída para fazer o pastel para vender.

Apesar dos dias difíceis, ele afirma que como servo de Deus nunca deixou de dar testemunho nem de receber as bênçãos sobre seu lar. Por isso mesmo diante das dificuldades ele sabia que sempre teria em dobro tudo quanto depositava no altar do Senhor.

Certo dia irmão Leonardo se viu em grande aperto diante das despesas com passes de ônibus para os filhos irem a escola e ao fato de ver que naquele restante de feira em casa só sobrara arroz e feijão para comer. O dinheiro que apurara na lanchonete acabou ainda de manhã quando teve que reabastecê-la do mínimo possível para tocar o negócio. Contudo no outro dia ele saiu de casa para comprar a carne achando que seu dinheiro dava para adquirir um quilo e assim poder dividi-la ao meio entre sua casa e a lanchonete. E ao chegar ao açougue mandou que cortasse a carne, porém seu desapontamento foi grande na hora de pagar quando percebeu que o dinheiro só dava para meio quilo já que havia os passes para os filhos irem a escola. E assim imediatamente ele mandou suspender a outra parte deixando o açougueiro zangado a reclamá-lo por tê-lo feito partir aquele naco de carne.

Irmão Leonardo saiu dali humilhado e abatido tanto por não levar a carne para casa como pela bronca do açougueiro. Todavia ao cruzar a segunda rua na direção de casa e, ao pegar um descampado, triste, inesperadamente quando ele levantou os olhos eis que surgiu um tatu andando calmamente em sua frente. Ele então refletiu e concluiu rapidamente que aquilo era providência divina e imediatamente partiu para cima do animal usando dos seus pés para imobilizá-lo.

De posse daquilo que lhe serviria para suprir a falta da carne em casa, ele com muita satisfação atribuiu o fato a uma bênção de Deus e chegou em seu lar ciente de que Ele é fiel e nunca haveria de deixar um servo desamparado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os lanches de ontem e de hoje


Ao entregar o dinheiro do lanche ao meu filho fiz observando esses lanches que fazem sucesso hoje em dia, os salgados tipo: coxinhas, esfirras, empada etc. No meu tempo eram as tapiocas com coco a grande atração. E como uma lembrança puxa outra recordei que uma vez ao receber o dinheiro do meu avô para também satisfazer ao meu estômago famélico na escola, ele me contou uma história do seu tempo de estudante na cidade de Mossoró.
Na escola em que ele estudava nada era mais disputado no recreio do que umas tapioquinhas bem úmidas, adocicadas e recheadas com coco que eram vendidas por um adolescente. E logo que a sineta tilintava liberando os alunos para o intervalo todos ficavam a aguardar a chegada do garoto com uma badeja repleta daquela iguaria de inigulável sabor e de cujo tempero todos desconheciam. E não dava para quem queria, logo a bandeja estava vazia e o menino voltava para casa com um saquinho cheio de moedinhas prateadas.
De repente deram pela falta do garoto no pátio da escola depois que ele havia conquistado uma legião de fregueses viciados naquelas guloseimas. E aquela ausência foi se prolongando deixando todos na mão e curiosos em saber o motivo daquele súbito desaparecimento.
Até que um dia, quando meu avô e mais alguns daqueles seus colegas andavam pela rua, avistaram o jovem vindo de encontro juntamente com dois irmãos menores. O menorzinho que parecia estar aprendendo a andar estava no meio, entre o adolescente e o outro que talvez estivesse com cinco ou seis anos. Ao se cruzarem todos pararam enquanto o adolescente sentiu que os estudantes estavam interessados em perscrutar a cerca do seu sumiço. E foi dito e feito logo eles quiseram saber porque o garoto deixara de levar ao colégio aquela iguaria que sempre provocava a maior comilança. Enquanto o adolescente parecia não achar uma resposta que justificasse sua ausência o garoto do meio foi enfático e não deixou passar a oportunidade para dizer que foi porque o leite do peito da mãe havia secado.
Ponto final, desde aquele dia acabou-se a fome daqueles estudantes pelo lanche que durante algum tempo fora o mais requisitado da escola.

domingo, 11 de outubro de 2009

A honra de um juiz


Nesses tempos de eleição indireta aqui no Tocantins vale apena lembrar uma sessão que assisti na Assembléia Legislativa em 18/03/05.


O deputado Santana do PT subiu à tribuna com o discurso pronto e olhou para os colegas soprando uma voz de desabafo repudiando a atitude de um juiz que processara alguns parlamentares daquela casa por conta de suas atuações durante a última eleição. Com a palavra na boca Santana diz: "A honra de um juiz no Tocantins vale cinco mil reais", referindo-se ao valor idenizatório requerido por um magistrado pela reparação ao dano aludido.
Sem titubear ele segue na sua oratória classificando o ato como um estorvo ao livre exercício dos seus direitos, bem como ao cumprimento dos seus deveres como representantes do povo.
Atento ao seu tempo que parecia esgotar-se rapidamente, após aferrar-se demasiadamente durante todo o seu discurso ao ocorrido, concluíu o protesto solidário aos colegas, subscrevendo-os, disposto a juntos denunciar ali todas as ações que fossem consideradas arbitrárias.
Em seguida foi a vez dos apartes de alguns colegas que vieram sob a forma de flechas rumo a um único alvo colocando em xeque a honra de um dos mais respeitáveis cargo do poder judiciário.
Insastisfeito com a acusação dos confrades, o Deputado Manuel Bueno pediu a palavra e contestou dizendo: "É muita petulância dizer que a honra de um juiz no Tocantins vale cinco mil reais. Isso é um desrespeito aos magistrados do nosso estado". Quando Bueno terminou percebia-se que ele tinha acirrado ainda mais os ânimos dos oradores que inconformados, pudia se ver, já se armavam de argumentos para revidar. Mas antes que os acossados contra-atacassem o deputado Eli Borges, que até então só observara ao debate calado, levantou-se e entrou rapidamente em ação usando de sua tática conciliatória própria a um pastor evangélico e levantando o dedo indicador atraíu os olhos para si para dizer em seguida de modo convincente: "O Deputado Manuel Bueno falou corretamente quando se referiu a honra de "Um juiz". Portanto se conclui que a honra dos demais não foi afetada pelos nossos colegas". A ação do Eli acalmou os ânimos de ambas as partes, encerrou o assunto e ainda conseguiu fazer com que todos, inclusive Manuel Bueno, caíssem na risada diante do seu parafraseado conciliador.