
Quando Palmas iniciava seu processo urbano e atraía seus primeiros moradores, Porto Nacional há muito já estava fincada no meio do cerrado norte-goiano como uma cidade tradicional, às margens do rio tocantins, conhecida com a mais histórica e como berço da cultura deste sertão outrora muito distante da capital de Goiás. E foi justamente de Porto que vieram alguns dos primeiros funcionários públicos e habitantes para esta planície onde edificaram a capital do Estado do Tocantins.
Porto Nacional cedeu parte de sua população e também foi favorecida pela proximidade com o centro das decisões políticas do Estado havendo, portanto, um equlíbrio entre as perdas e ganhos advindos com o surgimento da cidade administrativa.
Entre as tantas famílias que migraram nessa direção estava a do irmão Leonardo, um crente Batista natural da bahia que vendeu o que tinha para investir neste novo horizonte que ele viu se abrir não só para aqueles oriundos da região, mas para todos os brasileiros que tivessem coragem da arriscar-se a uma nova vida.
Quando chegou com a esposa, os dois filhos e a filha ele logo comprou uma casinha simples naquela quadra que hoje é uma das regiões mais nobres da cidade, a Arne 14, e com o que sobrou saiu à procura de uma nova ocupação já que com sua mudança havia vendido a oficina de bicicleta que era o que lhe dava o sustento.
Sem saber por onde começar ele foi até a rodoviária que ficava na Arso 41 e logo que lá encostou avistou uma lanchonete bem rústica à venda que não tinha mais do que duas ou três sacolas de laranjas dependuradas em sua dependência. Ao procurar saber o valor, o proprietário pediu dois mil e quinhentos reais por aquele vão de tábua que fazia parte da estrutura precária da rodoviária e que era desprovido de móveis e qualquer tipo de saneamento básico. Depois de fazer um levantamento no seu capital, irmão Leonardo viu que podia dispor apenas de dois mil contando com as duas bicicletas que seus filhos usavam para ir a escola. E a proposta foi bem recebida e aceita pelo vendedor que de imediato lhe entregou a posse daquela sala vazia.
Para dar início à labuta ele comprou um fogão, arranjou uma geladeira emprestada com um irmão do grupo de gideões e a estufa foi doada por um irmão de sangue. A partir daí toda manhã ele ia ao açougue comprar meio quilo de carne moída para fazer o pastel para vender.
Apesar dos dias difíceis, ele afirma que como servo de Deus nunca deixou de dar testemunho nem de receber as bênçãos sobre seu lar. Por isso mesmo diante das dificuldades ele sabia que sempre teria em dobro tudo quanto depositava no altar do Senhor.
Certo dia irmão Leonardo se viu em grande aperto diante das despesas com passes de ônibus para os filhos irem a escola e ao fato de ver que naquele restante de feira em casa só sobrara arroz e feijão para comer. O dinheiro que apurara na lanchonete acabou ainda de manhã quando teve que reabastecê-la do mínimo possível para tocar o negócio. Contudo no outro dia ele saiu de casa para comprar a carne achando que seu dinheiro dava para adquirir um quilo e assim poder dividi-la ao meio entre sua casa e a lanchonete. E ao chegar ao açougue mandou que cortasse a carne, porém seu desapontamento foi grande na hora de pagar quando percebeu que o dinheiro só dava para meio quilo já que havia os passes para os filhos irem a escola. E assim imediatamente ele mandou suspender a outra parte deixando o açougueiro zangado a reclamá-lo por tê-lo feito partir aquele naco de carne.
Irmão Leonardo saiu dali humilhado e abatido tanto por não levar a carne para casa como pela bronca do açougueiro. Todavia ao cruzar a segunda rua na direção de casa e, ao pegar um descampado, triste, inesperadamente quando ele levantou os olhos eis que surgiu um tatu andando calmamente em sua frente. Ele então refletiu e concluiu rapidamente que aquilo era providência divina e imediatamente partiu para cima do animal usando dos seus pés para imobilizá-lo.
De posse daquilo que lhe serviria para suprir a falta da carne em casa, ele com muita satisfação atribuiu o fato a uma bênção de Deus e chegou em seu lar ciente de que Ele é fiel e nunca haveria de deixar um servo desamparado.

