Depois de algum tempo morando em Palmas o vendedor de picolé Almir retornou à cidade de Imperatriz no Maranhão para se desfazer do útimo bem que deixara por lá - a casinha de alvenaria que levara toda uma vida para construir na periferia daquela cidade. Não tinha dúvida de que queria se estabelecer de vez na capital do Tocantins e iria usar o dinheiro para aplicar na compra de outro abrigo, tendo já perambulado pelas ruas e até encontrado uma simplesinha mas com sala, cozinha, dois quartos e um banheiro.
Estava satisfeito na nova cidade, as vendas de picolé estavam indo de vento em popa e nos finais de semana, quando trabalhava na praia, vendia de dois a três carrinhos daquele palatável sólido gelado e ainda levava o filho pré-adolescente para catar latinhas e com isso tirar o dinheiro do material escolar. A mulher estava trabalhando de ASG no Palácio Araguaia e nas horas de folga sempre lhe aparecia uma faxina ou uma lavagem de roupa reforçando o orçamento enquanto que a filha adolescente colocava em ação suas prendas domésticas ao tomar conta da casa.
Naqueles primeiros meses ele não precisou pagar aluguel, graças ao cunhado que cedera um quartinho nos fundos de sua casa para ficarem até ele encontrar um serviço. Até que chegou o dia de tomar uma decisão.
Chegando em Imperatriz parecia que o destino o queria mesmo como parte do mais novo estado do Brasil. Pois mal ele terminou de abrir a boca e já aparecia comprador com dinheiro contado e sem pedir nem um centavo de abatimento. De posse do numerário ele não demorou-se e rapidamente foi à rodoviária comprar a passagem. No mesmo dia embarcou com o dinheiro que coube todinho dentro do bolso da calça. Era pouco mesmo, não deu nem para abarrotar. Na mão ele levava uma pequena sacola de plástico contendo uma calça velha remendada que até suja estava além de duas cuecas e uma camisa surrada. Quando entrou no ônibus colocou aquele embrulho junto aos pés e viu o carro seguir viagem pela noite a dentro. O pensamento era só um - chegar em casa com o amanhecer e sair iediatamente para fechar o negócio.
Sentado na última fila de cadeiras ele logo adormeceu ouvindo o distante barulho do motor com o corpo a balançar enquanto o veículo percorria a rodovia Belém-Brasília na aceleração permitida pelo tacógrafo. No avançar da viagem, quando provavelmente já estavam da metade para adiante ele acordou ao sentir aquela desaceleração e teve a impressão de que o ônibus se desviava da rota ao perceber uma trepidação incomum a BR que trafegavam. Sonolento escutou umas vozes estranhas e percebeu que o motorista parou de vez para em seguida abrir a porta do veículo.
Desconfiado ele colocou a cabeça na linha do corredor avistando a fila de cadeiras dos dois lados, arregalou os olhos sonolentos e para sua tristeza teve a conclusão de que todo aquele seu trabalho de anos estava a se evaporar naquele instante.
Imediatamente ele retirou o dinheiro do bolso à procura de algum lugar ao redor para esconder dos bandidos que lá na frente apontavam armas para os passageiros naquela determinação de que lhes entregassem tudo de valor que tivessem. Sem nenhuma alternativa ele discretamente abriu a sacola e colocou o numerário dentro da perna da calça velha que estava no fundo. Mas estava ciente de que aquilo de nada iria adiantar ao ver que os homens reviravam tudo que pegavam com uma sede de não deixar nada passar.
Quando os homens avançaram até onde ele estava, mandaram-no colocar-se de pé ordenando que virasse o rosto e logo meteram a mão nos seus bolsos encontrando apenas os dois reais que serviriam para pagar a passagem do transporte urbano da rodoviária até sua casa. E sem perda de tempo arrebataram-lhe a sacola enquanto ele ouvia o barulho do devassar de suas poucas roupas de forma amiúde.
Ao final os homens sairam sem nada reclamar deixando-o certo de que eles haviam subraído todo o seu suado trabalho. Triste, estava inconformado desejando ser aquele momento apenas um sonho longínquo. De tão abatido que ficou não tivera nem coragem de conferir o prejuízo para não aumentar ainda mais o malfadado desgosto que apossava de si.
Ao desembarcar naquela manhã sentindo-se liso e desconsolado teve que ligar par o cunhado vir buscá-lo na rodoviária, já adiantando o terrível acidente o qual fora vítima. Sem palavras seguiu ao lado do cunhado. Ao parar em casa desceu cabisbaixo vendo a mulher e os filhos chorando o que o deixou ainda mais impotente.
Ao entrar em casa tirou aquelas roupas amarrotadas de dentro da sacola e, sem ânimo, deixou-as sobre a cama desprovido de qualquer perspectiva futura.
Mas grande foi a surpresa de todos quando sua filha juntou aqueles trapos na intenção de levá-los para lavar. Pois nem bem ela levantou aqueles panos e logo começou a chover dinheiro pela perna da calça velha, para alegria da família que perceberam terem os ladrões passado batido diante do tão bem improvisado esconderijo.