Eu hoje me lembrei do tempo de estudante quando morei na velha casa da praça Lins Caldas em Natal. Dias difíceis mas de muito aprendizado na vida. Ali onde fora uma cadeia na época da 2ª guerra mundial ainda hoje serve de abrigo para os adolescentes que deixam a casa dos pais no interior para tentar de vez ingressar na vida propriamente dita. Gente que chega, gente que sai. E gente que permanece por uma vida inteira alimentando o sonho que as vezes termina em nada. Todavia muitos que passaram por lá e que pegaram o prumo, mesmo que não tenham feito um curso superior, hoje são pessoas bem sucedidas e podem oferecer aos filhos outra realidade que não aquela dentro daquelas celas onde outrora abrigara bandidos. Recordo-me de muitas situações; a começar pelo amanhecer quando acordava e ia para fila do banho, era preciso entrar no banheiro sem roupa para não perder a vez e logo que um chuveiro desocupava caía debaixo enquanto enganchava a roupa e a toalha, que estava nas mãos, naqueles cabides ainda impregnados pelo cheiro das roupas íntimas do colega anterior.
Depois do café saía para o colégio e, depente no meio do caminho o corpo começava a coçar e então via sair por entre as frestas da roupa aquele percevejo pequenino e preto andando devagarzinho por entre os pelos florescentes do meu corpo. Já não bastava as nossas camas repletas daqueles hematófagos obrigando-nos a toda semana fazer uma limpeza com querosene para diminuir a grande infestação.
Era também muito comum contrair escabioses e outras alterações cutâneas decorrentes do próprio ambiente coletivo onde os colchões na sua maioria eram velhos e mofados.
A minha primeira semana na Casa do Estudante do Rio grande do Norte foi pesada. Era o início do ano de 1981 e caíra um dilúvio na região do Trairi derrubando torres de energia elétrica deixando a capital sem luz durante vários dias.
Ficamos sem água e consequentemente o restaurante não pode funcionar. Era preciso descer até o Paço da Pátria, às margens do rio Potengi, para tomar banho em umas cacimbas que havia por lá.
Para completar, a casa passava por um grave problema financeiro penando com um dívida a perder de vista. Porém o mais complicado era entrar naquelas privadas francesas que ficavam separadas do local de banho. O cheiro não era cheiro, era fedor. Restava ter paciência ao fazer o serviço tentando tampar o nariz, quase a ficar sem fôlego.
Acho que vivi dez anos em um ano e que comi uma tonelada de arroz duro feito bolão. Tomei várias pipas de sopa sem gosto e segurei centenas de vezes aqueles bandeijões mal lavados em que era servida a comida.
Enfim sofri, mas não desisti. Aprendi e hoje tenho uma profissão que me deu um emprego.
Agradeço a Deus por ter conseguido. E fico feliz por ver que os colegas da minha época e que se abrigavam comigo na mesma cela também venceram. Posso citá-los um a um como prova inequívoca da persistência e do sucesso alcançado.
Entre eles estão: Costinha, Totinha, Lisboa Marinho, Teton ( meu irmão), Chico Lopes, Saboinha, Dião, Raimundo de Dico, Dibede, Vicenildo e Carlos Alberto.
Hoje moro distante de todos, mas quando os encontro vejo nos olhos de cada um a certeza de que valeu a pena pagar tão caro para ter uma vida melhor.
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